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Crônicas
Ele simplesmente não está (mais)
a fim de você
Sou de uma credulidade a toda prova, como se vivesse num mundo à parte, o que só reconheci na maturidade; mas, olhando em retrospectiva, vejo que se trata de traço arraigado, presente desde a minha infância. Talvez por pura autodefesa, minha conclusão particular é de que é melhor ser assim. Digo e repito que não vale a pena viver sem confiar. Junte-se a esse quadro uma conseqüente incapacidade de reconhecer sinais à minha volta, e está feita a confusão. Sofro de uma espécie de “astigmatismo emocional”, e minha grande habilidade de enxergar dinâmicas à distância simplesmente não funciona quando estou muito envolvida. Nestes casos, não enxergo um palmo à frente do meu nariz. Portanto, ao menos comigo, é melhor não “emitir sinais”, mas ir direto ao ponto, explicitando as mensagens com todas as letras.
Por ser assim, compliquei ainda mais momentos que normalmente já seriam difíceis – embora hoje estas cenas pareçam-me divertidas. Talvez até rendessem episódios daqueles seriados norte-americanos sobre mulheres urbanas, em tese, maduras e resolvidas. Uma dessas cenas ocorreu no único “pé-na-bunda” sério que já levei. A longa relação já estava, de fato, acabada, o que minha cegueira me impedia de ver. Como percebi depois – engenheira de obra feita –, os sinais eram claros. No entanto, para os nossos registros internos, encerrar uma relação significa fracasso, e a gente evita admitir o fracasso como o diabo foge da cruz. Pura bobagem, como eu viria a entender depois: o fim de uma relação é o fim de uma relação. Ponto. É triste, mas não deveria ser o fim do mundo, como a gente acha, na hora, porque aprendemos a ver assim o assunto, ao invés de concebê-lo como um ciclo possível e necessário na vida.
Pois bem, voltando ao meu “pé-na-bunda”: ele tentou me dizer, por sinais e metáforas, ao invés de um simples “time is over”. Por fim, num inesquecível diálogo, ele explicitou o clichê: Você é uma mulher maravilhosa, muito mais do que eu mereço. Um dia você vai encontrar alguém à sua altura. A tradução, que eu deveria ter entendido na hora: Encontrei uma outra mulher, pior que você, a que eu mereço (e quero). Fui. Minha idílica interpretação foi: Finalmente ele está vencendo seu egoísmo e tentando tornar-se uma pessoa melhor, que pensa no outro (no caso, em mim). Claro que, dada a minha (equivocada) conclusão, anos de desgaste foram abafados e o efeito foi o oposto: apaixonei-me de novo. Assim, prossegui em meu delírio e decidi que ele nem precisaria me pedir, porque eu lhe daria a chance de me merecer (lógico que poderia, se quisesse, tornar-se, ele próprio, o “homem à minha altura”).
Que situação! Obviamente a verdade foi escancarada pouco tempo depois, e o sofrimento não foi pouco, mas agora, à distância, posso me dar ao luxo de divertir-me com o non-sense. Hoje em dia, há até livros de auto-ajuda para nos auxiliar a entender os tais “sinais”, quando um homem quer dar o fora. Passei a usar lentes para tentar enxergar melhor as coisas, a lidar minimamente com a minha “paranóia às avessas”, essa falta de “desconfiômetro” que me faz viver no mundo da Lua, tornando-me um pouco autista em pleno tiroteio na Terra.
Até que estou indo bem, – embora, às vezes, tenha recaídas feias. Outro dia, por exemplo, caminhava pela rua quando um rapaz parou sua moto perto de mim e me disse (em minha lembrança, com voz doce): Moça, vou roubar você. Claro, não dei bola e continuei andando, porque sou durona, mas confesso que me fez bem ao ego, quase cinquentona, ser chamada de moça e, mais ainda, a “ameaça” de ser raptada. Passado um tempo, eu já “segura” dentro do escritório, a ficha caiu: Putz, talvez eu estivesse na iminência de ser assaltada! Seja como for, meu comportamento deve ter funcionado: o pobre assaltante deve ter imaginado que não valia a pena, seria muito arriscado enfrentar uma lunática.


